a casa habitada

 



na casa habitada
a iluminação
desenhando sombras
dos sonhos cativos,
um vaso de azáleas
adoece a memória
na esquina da sala.
há no horizonte
silêncio de flores;
o olhar do meu pai,
uma festa de anos,
os meus três irmãos,
outra dor profunda
no fim do quintal,
mais um cão rafeiro
salvo da degola
dos carros da câmara.
é a habitação
possível da infância,
pequeno país
de toda a família,
quando em comunhão
se escuta o sussurro
da água de março
no rio seco, cheio
de espelhos, e pássaros
que vão para o sul
descansando as asas.
lá fora há plantas
cujos nomes eu
sei, que fazem parte
duma arquitectura
de linguagem nova
apesar de terem
a sobrevivência
da memória escrita.
no telhado velho
a língua dos nomes,
a estrutura forte
na esquina dos ombros,
tijolos vermelhos
estão colocados
um por um, enquanto
a fala dos braços,
- prumo verdadeiro
de cada habitante -
risca no muro a
verticalidade
sempre construída.
o pão é do sabor
de um outro pão ázimo
comido no exílio
onde a habitação
é um grande problema,
feito esquecimento
no sabor da língua
no caule das ervas
quando muitas árvores
se assemelham só
na copa das folhas
e um olhar errante,
pedinte e dorido
lembra um sopro, um vento
na janela que
se fecha na sombra
de uma caminhada.
à volta da casa
há plantas de sol,
e riscos de luz
que cegam os olhos
e a boca é um grito
inútil na folha
manuscrita, leve,
na recriação
da casa habitada.
 

 

José Félix